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‘Netflix do delivery’: como os apps de comida estão mudando o negócio dos restaurantes

Nicole Rizzutti Lemos

Publicado

em

Tempo de Leitura: 5 minutos

O casal Emre Uzundag e Yonca Cubuk dizem que estão vivendo um “pequeno sonho” graças a um app de entrega de comida.

Os turcos emigraram para Nova York em 2020 e ficaram presos dentro de um pequeno apartamento no Brooklyn por causa da pandemia do coronavírus.

Com saudades da terra natal, os dois começaram a preparar pratos da cozinha turca para lidar com o estresse da quarentena. “Foi uma necessidade mental durante a pandemia”, afirma Cubuk.

Então eles passaram a cozinhar para amigos espalhados por Nova York e tiveram uma resposta muito boa.

O BanBan Anatolian Home Cooking também oferece pratos com influências armênias, persas, árabes e judaicas

“Falaram que a gente deveria trabalhar com isso”, diz ela.

Apesar de nenhum dos dois ter trabalhado como chef antes, no ano passado eles resolveram entrar de cabeça no negócio e começaram a usar um app chamado Woodspoon.

Enquanto os maiores aplicativos de entrega de comida no mercado norte-americano como Just Eat, Deliveroo, Uber Eats e DoorDash (o maior no país) listam grandes redes de restaurante, o WoodSpoon (colher de madeira, em inglês) tem uma estratégia bastante diferente.

O serviço foi lançado no começo de 2020 com o intuito de fazer a ponte entre pessoas que cozinham em casa e clientes que querem algo diferente do que é oferecido pelas maiores empresas do ramo.

Disponível em Nova York e Nova Jersey, o aplicativo tem 120 chefs da região entre as opções e fica responsável por fazer a entrega dos pedidos.

O negócio do casal Uzundag e Cubuk, batizado de BanBan Anatolian Home Cooking, opera quatro dias por semana – os outros três são investidos no teste de novas receitas. Yonka Cubuk disse que a grande demanda de pedidos obrigou os dois a trabalharem até no aniversário de casamento.

Ela diz que o serviço evitou que eles precisassem alugar uma área comercial. “WoodSpoon dá uma plataforma e uma voz para contar a nossa história”, diz.

“E nós somos mais do que kebabs e pilaf (um prato originário na Ásia feito com arroz). Os pratos que mais saem são a sopa de lentilha e o cozido de espinafre com laranja. Os dois são vegetarianos; o último é vegano”.

Influência da pandemia

Lee Reshef, cofundadora da Woodspoon, diz que o lançamento do serviço no momento em que a pandemia foi deflagrada ajudou o negócio. “Nós tivemos sorte de ajudar muitos trabalhadores do ramo dos restaurantes que precisavam de uma nova fonte de rendimento”, afirma ela.

Antes de serem aceitos pela Woodspoon, os chefs precisam mostrar que possuem treinamento em segurança alimentar e têm a cozinha inspecionada.

O chef também precisa fazer um registro da atividade com autoridades locais, além das avaliações sobre as condições de higiene.

Com a pandemia forçando o fechamento de restaurantes por um longo período, os últimos dois anos foram de grande expansão para os apps de entrega. A maior empresa do ramo no Reino Unido, a Just Eat, viu subir o faturamento em 42% entre 2019 e 2020, para US$ 990 milhões. Na DoorDash, o resultado foi o triplo, para quase US$ 3 bilhões.

Com esse novo mercado em relevância, surgem demandas novas de clientes. Por exemplo, pedir pratos de diferentes restaurantes entregues juntos em um mesmo pedido.

Alguns apps estão começando a oferecer esse serviço.

Um aplicativo dos EUA, Go By Citizens, de propriedade do grupo C3, possibilita que sejam feitos pedidos pratos de diferentes tipos de restaurante, como o Umami Burger, Krispy Rice, Cicci di Carne e Sam’s Crispy Chicken.

O grupo C3 administra 800 cozinhas-fantasmas nos EUA

Mas para possibilitar que a comida seja preparada e esteja pronta para a entrega ao mesmo tempo, a C3 diz que opera 800 cozinhas fantasmas. São diferentes estações de preparação debaixo de um mesmo teto, apenas para entrega.

“Nosso app permite que os clientes selecionem, escolham e agrupem seus itens favoritos do menu a partir de uma variedade de marcas da C3 em um único pedido”, afirmou o diretor-executivo da empresa, Sam Nazarian. Ele descreve o seu negócio como “a Netflix dos pedidos de restaurante”.

O app C3 permite que o cliente peça pratos de diferentes restaurantes no mesmo pedido

Além das marcas da C3, a empresa está convidando outros restaurantes e negócios para sua plataforma e para seu espaço de cozinhas fantasmas.

Enquanto isso, outro negócio baseado nesse modelo, o Kitchen United também possibilita que sejam pedidos pratos de diferentes marcas ao mesmo tempo pelo seu app.

“Tudo é entregue ou fica disponível para retirada ao mesmo tempo e na mesma conta”, afirma o diretor-executivo da Kitchen United, Michael Montagno. “Então se uma pessoa quer sushi e a outra prefere pizza, é possível resolver.”

O serviço está disponível em dez localidades e deve chegar a mais oito em breve.

No Reino Unido, a companhia Deliveroo tem cozinhas fantasmas onde alguns restaurantes operam sem precisar pagar aluguel. Mas, segundo uma porta-voz da empresa, ainda não há como pedir comida de diferentes marcas de uma só vez.

A Kitchen United possibilita que sejam escolhidos pratos de diferentes marcas em um único pedido

Seja a possibilidade de pedir uma comida feita em casa ou escolher itens de diferentes restaurantes em um único pedido, os novos modelos vão colocar mais pressão sobre restaurantes físicos ou outros negócios de entrega que estão enfrentando dificuldades?

O crítico gastronômico britânico Andy Hayler disse que alguns não se animam muito com a ideia de ter comida feita por três restaurantes diferentes em um único pedido.

Muitas vezes, em uma mesma casa, um quer pizza e o outro quer sushi sem que haja acordo

“Se eu visse um menu que oferecesse duas ou três coisas muito diferentes, isso soaria para mim uma fornecedora de alimentos genérica, que faz comida em linha industrial”, diz ele.

Para Hayler, alguns ingredientes, como curry, funcionam bem no delivery. Mas as cozinhas francesas e japonesas têm problemas porque a apresentação conta e os pratos ficam prejudicados espremidos em recipientes de plástico.

“Metade da experiência (com comida francesa e japonesa) é visual”, afirma.

Fonte: BBC Brasil

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