Muitos de nós temos a sorte de poder escolher, pelo menos até certo ponto, aquilo que queremos comer. Quando abrimos o refrigerador ou examinamos as prateleiras do supermercado, existe uma variedade de opções disponíveis.
Mas as decisões que tomamos sobre a nossa alimentação são tão independentes como gostaríamos? E se elas fossem influenciadas por algum outro fator além da fome e das opções que temos à nossa frente?
Basta pesquisar as redes sociais, como o Instagram, Twitter ou Facebook, para encontrar fotos e mais fotos de refeições em apresentações perfeitas e com aparência simplesmente deliciosa. O aroma e o sabor dos alimentos podem ter um efeito inegavelmente poderoso sobre os nossos anseios, mas as intermináveis postagens de lanches quentinhos e pratos resplandecentes podem ser mais que apenas um banquete para os olhos?
Nós certamente somos muito influenciados pelas outras pessoas – especialmente as mais próximas – com relação ao que comemos. Pesquisas concluíram que, quanto mais forte e próxima a conexão entre duas pessoas, mais influência elas têm sobre as escolhas alimentares uma da outra.
“Muitas das sugestões provenientes das interações pessoais estão relacionadas com as pessoas com quem convivemos“, afirma Solveig Argeseanu, professora de saúde global e epidemiologia da Universidade Emory em Atlanta, na Geórgia (Estados Unidos). “É mais uma questão de relacionamento e de como me comparo com aquela pessoa que com indivíduos específicos. Se eu acho que a pessoa que está comigo é mais atraente ou popular, terei a tendência de querer imitá-la cada vez mais.”
Isso pode significar que essas sugestões sociais geralmente nos incentivam a comer mais, segundo Argeseanu. Mas as pesquisas indicam que ficar ao lado de pessoas com alimentação saudável também pode nos incentivar a fazer o mesmo.
Nossos hábitos de alimentação são ainda influenciados pelo que vemos. Os cientistas afirmam que nós preferimos proteínas “derretidas”, como gemas de ovos líquidas ou muçarela borbulhante, por exemplo.

“Existem evidências de que, se você olhar fotografias de alimentos, o estímulo visual pode fazer você sentir vontade de comer”, afirma Suzanne Higgs, professora de psicobiologia do apetite da Universidade de Birmingham, no Reino Unido – embora, segundo ela, muitos outros fatores influenciem as pessoas na hora de decidir se atenderão ou não a essa vontade, como a disponibilidade de alimentos naquele momento.
Mas as redes sociais são onde as sugestões visuais e sociais se encontram – e é claro que existem evidências de que, se os seus amigos nas redes sociais postarem tipos específicos de alimentos com frequência, eles poderão fazer com que você os imite, para o bem ou para o mal. Pesquisas indicam que as redes sociais podem estar mudando o nosso relacionamento com a comida, fazendo com que pensemos de forma diferente sobre a nossa alimentação.
“Se todos os seus amigos nas redes sociais postarem fotografias deles próprios consumindo fast food, isso estabelecerá uma norma de que comer fast food é o que as pessoas fazem [normalmente]”, afirma Higgs.
Pesquisas indicam que temos maior propensão a interagir com fotografias de fast food, segundo Ethan Pancer, professor de marketing da Universidade Saint Mary em Halifax, na Nova Escócia (Canadá). Isso é particularmente verdadeiro para a gordura saturada, que nos faz sentir bem ao liberar dopamina e estimular centros de prazer no cérebro. Os seres humanos são biologicamente incentivados a procurar alimentos com alto teor de calorias – uma capacidade que ajudou nossos ancestrais a sobreviver na época em que eles coletavam seus alimentos.
“A psicologia da evolução descobriu que as pessoas se sentem felizes simplesmente ao ver imagens desses alimentos e, por isso, interagem mais com elas”, afirma ele.
Para piorar a situação, os alimentos mais saudáveis muitas vezes têm aparência comparativamente inferior, enquanto os alimentos processados parecem mais atraentes, segundo Tina Tessitore, professora de marketing do Instituto de Economia Científica e Gestão (IESEG, na sigla em francês) da Faculdade de Administração de Lille, na França. “Na publicidade, você vê alimentos não saudáveis em ambientes sociais – pessoas em um churrasco com os amigos, por exemplo – enquanto [os anúncios de] alimentos saudáveis muitas vezes se concentram no seu valor nutricional. Imagens de amigos comendo salada juntos não parecem muito convincentes“, afirma ela.
Os cientistas estão cada vez mais preocupados com o conteúdo relacionado à comida nas redes sociais, que está fazendo com que pensemos de forma diferente sobre os alimentos. Os algoritmos das redes sociais promovem o conteúdo com o qual os usuários têm maior interação, de forma que ver mais alimentos não saudáveis significa que veremos cada vez mais esses alimentos nas nossas redes sociais, segundo Ethan Pancer.
“Com a maior interação e alcance dos alimentos não saudáveis, os produtores de conteúdo podem aumentar gradualmente seu material não saudável para permanecer competitivos”, afirma ele. “E, com maior exposição a alimentos não saudáveis, a percepção do consumidor sobre os hábitos de alimentação considerados normais pode tender a ser menos saudável.”
Um estudo estimou que crianças e adolescentes assistem a publicidade de alimentos de 30 a 189 vezes por semana nos aplicativos de redes sociais. Dentre esses anúncios, os de fast food e de refrigerantes são os mais comuns. Mas a responsabilidade não é só da publicidade da indústria alimentícia – todos nós somos capazes de influenciar as pessoas online.

‘Comportamentos não saudáveis’
“Quando pensamos na publicidade, imaginamos as indústrias tentando empurrar um produto, mas os influenciadores podem trabalhar da mesma forma“, afirma Patricia Cavazos, professora de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Washington em St. Louis, Missouri, nos Estados Unidos. “O conteúdo dos amigos nas redes sociais causa muita influência, em termos de impacto sobre o que achamos que é relevante e atraente, bem como as normas sociais de comportamento”, segundo ela.
O perigo começa, segundo Cavazos, se o conteúdo que as pessoas veem perpetua uma imagem de corpo não saudável, por exemplo. “Alguns de nós somos menos influenciados pelo conteúdo, mas, para outros que já estão em risco e podem ter sintomas de distúrbios alimentares, ver mais conteúdo normalizando padrões de alimentação não saudáveis poderá levar alguém a desenvolver comportamentos não saudáveis.”
Embora os estudos demonstrem que as redes sociais podem fazer com que pensemos de forma diferente sobre os alimentos e que nós tipicamente interagimos mais com conteúdo que apresente alimentos não saudáveis, ainda não há certeza se isso realmente se traduz em mudanças de comportamento na nossa vida diária.
“Se estou olhando o Instagram, vendo fotos de alimentos apetitosos, a decisão de procurar ou não a comida que estou sendo incentivada a buscar depende da minha fome e se aquele alimento é apropriado naquele momento”, afirma Suzanne Higgs. E ela acrescenta que, quando realmente comemos, existem outras influências além das que vimos online.
“Pesquisas indicam que, quando tomamos a decisão de qual alimento comer e em qual quantidade, estamos combinando diferentes informações”, segundo Higgs. “Influências momentâneas se reúnem em formas que não compreendemos muito bem.” Pesquisas concluíram que essas influências podem incluir o nível de conhecimento nutricional, ideais do próprio corpo, habilidades na cozinha e o custo.
E, embora os pesquisadores possam isolar, de forma relativamente fácil, as possíveis influências nas redes sociais para ver como elas afetam nossa alimentação, existem muitos outros acontecimentos se desenrolando na vida real que esses estudos não conseguem observar, segundo Higgs. “É possível que, para algumas pessoas, em certas situações, as redes sociais possam ser o fator predominante a influenciar seu comportamento, mas este não é o único fator”, afirma ela.
A intensidade da influência das redes sociais sobre nós também varia para cada indivíduo, segundo Melissa Atkinson, conferencista sobre psicologia da Universidade de Bath, no Reino Unido.

“Existem muitas variações individuais em nossa forma de reação às imagens nas redes sociais, em termos dos nossos próprios processos biológicos e psicológicos“, afirma ela. Algumas pessoas têm reações de recompensa maiores a sugestões, por exemplo, quando o cérebro envia sinais de prazer depois que elas veem certos alimentos, segundo Atkinson. Essas pessoas são mais propensas a reagir a sugestões de alimentos independentemente de onde vêm essas indicações.
Mas, mesmo sem respostas definitivas, os pesquisadores estão buscando formas de fazer com que as redes sociais influenciem nossa alimentação de forma positiva.
Tina Tessitore, por exemplo, encontrou uma forma de fazer com que os alimentos mais saudáveis pareçam mais atraentes nas redes sociais. Ela criou duas contas idênticas no Twitter, exceto por um detalhe: uma tinha 23 seguidores, enquanto a outra tinha mais de 400 mil.
As duas contas publicaram o mesmo tuíte sobre comer alimentos saudáveis. Ela mostrou uma das contas aos participantes e, quando questionados se tinham vontade de comer salada, os que viram a conta com mais seguidores estavam mais inclinados a consumir esse tipo de alimento. Segundo Tessitore, isso ocorre porque, quanto mais acreditamos que alguém é influente, mais propensos somos a ser influenciados por essa pessoa.
Embora as conclusões não reflitam a realidade, que tipicamente nos expõe a numerosos fluxos de informação, imagens e tuítes, nós ainda observamos e processamos quantos seguidores tem uma conta no Twitter, segundo Tessitore, de forma que provavelmente se observaria o mesmo efeito.
Mas, no momento, estamos longe de conseguir incentivar as pessoas a adotar alimentação mais saudável com postagens sobre saladas e fazer com que as pessoas se afastem das poderosas imagens de proteínas derretidas.
“Estamos lutando contra anos de evolução“, afirma Pancer. “Existe uma razão por que evoluímos para procurar alimentos ricos em calorias em ambientes com escassez de alimentos. Mas comer [apenas] o que parece bom é um erro – precisamos agora encontrar formas de nos recalibrarmos.”
Pancer descobriu em suas pesquisas que, assim que desmistificarmos por que ver fotos de hambúrguer com batatas fritas parece bom, o efeito da boa sensação desaparece. Em outras palavras, se compreendermos que somos biologicamente programados para sentir-nos bem quando vemos imagens de hambúrgueres, talvez fiquemos menos propensos a ser influenciados por elas.
Em um estudo, ele e sua equipe pediu aos participantes que assistissem a um dentre dois vídeos. Um deles apresentava alimentos com poucas calorias e o outro, alimentos com alto teor de calorias. Os que assistiram aos alimentos com maior teor de calorias sentiram-se melhor em seguida.
Na segunda parte do estudo, Pancer disse aos participantes que seus sentimentos não eram baseados nos alimentos que eles haviam visto, mas em um som de baixa frequência modulador do humor que estava sendo executado, que não era detectável pelos ouvidos humanos, enquanto o outro grupo não havia recebido essa influência. Os que foram informados sobre o som não eram mais propensos a interagir com o vídeo nas redes sociais depois de assistir ao vídeo de alimentos com alto teor de calorias.
Mas, por fim, quando saímos das redes sociais e voltamos para a vida real, as muitas influências sobre o que comemos e de que forma consumimos esses alimentos são ainda muito mais fortes, segundo os especialistas.
“Imagino que as sugestões de alimentos sejam mais fortes pessoalmente”, afirma Argeseanu. “Não estamos interagindo da mesma forma, nem por muito tempo, quando rolamos fotos no celular. Além disso, existem pesquisas que demonstram que, se observarmos muitas fotos, começamos a sair de sintonia – começamos a sentir algo similar à saciedade, como se tivéssemos devorado todas elas.”
Pelo menos, se você preferir ter esses banquetes apenas no Instagram, não precisará afrouxar seu cinto.
Fonte: BBC Brasil
20 comments
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